Ciclo da Vida

Lyrics: Guilherme Duarte Music: Guilherme Duarte [Intro: Voz feminina] É um menino, é perfeitinho Parabéns aos papás, quem é que o quer pegar ao colinho?
[Verso 1 - Nascimento e infância: GANDIM] Hm hm, yeah Mal te cortam o cordão umbilical Já têm expectativas e põem pressão em ti Peso e altura, percentil padrão normal Para não destoares e pertenceres aqui Quantos dedos tem? Querem-te perfeito Trejeito do pai, carinha da mãe "Faz lembrar o avô", diz a avó também Nasces a chorar, mas é para teu bem Condicionado, cão de Pavlov Aconchegado, das dеz às nove Fora de horas, não desistеs, choras e tens recompensas Ainda não pensas, mas já existes Cólicas, dentes, fome Mama na boca, mamã dá em louca Gases, sono, não dorme Fraldas, xixi, cocó conforme Papá à beira de um ataque, esgotado sem paciência Papa Cerelac sem leite, aguado nem consistência Início da existência, arrotos e biberões Fazer tempo e crescer entre as refeições Aprendes a sentar, depois gatinhas Os primeiros passos, meia dúzia de palavras Turrinha, palminhas Gugu dadá, mamã papá Peak a boo, o bebé não está Tudo o que dizes é engraçado "Oh filho, isso não se fiz" Disfarçam e riem para o lado "Guilherme, assim não!" Porquê? "Porque não" "Porque não" não é resposta "Porque eu sou teu pai e a um adulto não se riposta" É a curiosidade imposta da idade dos porquês Com os deditos pequenitos respondes que já tens "tês" Vais crescendo, infantário, escorregas, aguarelas Brincar com plasticina, mas ainda foges delas Jogas à sardinha, bolas de sabão Esfolas os joelhos, passas a vida no chão "O que queres ser quando fores grande?" Astronauta, bombeiro ou pirata "Podes ser o que quiseres, meu filho Traça o teu trilho com o teu brilho Se preferires ser futebolista ou cantor Tudo é possível, meu amor Tens o mundo a teus pés, tu é que decides quem és O futuro é imprevisível Mas vai para a cama, já são dez" Na primária A E I O U Tabuada, 1x1 Caderno cheio, estudo do meio Apanhada no recreio Quantos queres tu? Crescer sem receio, memórias para o baú Tazos, matutolas, jogar à bola Fantasmas fluorescentes, primeira consola Tattoo do Bollycao, trocar cromos na escola Índios e cowboys com flechas e pistolas Lápis de cera e de cor Primeiro crush, pensas que é amor Pintar dentro dos limites Picotar pelo traço numa esponjinha Cedo te ensinam a não sair da linha (voz feminina) Tens que olhar para um lado e para o outro Mas depois demoras muito tempo a olhar para o outro E vêm do outro Saudades da escola nas férias de verão Idades outrora inocentes sem noção Enquanto não há pressão há prémios de consolação e de participação O mundo cabe inteiro na palma da tua pequena mão
[Interlúdio: grupo de pessoas] Hoje é dia de festa Cantam as nossas almas Para o menino Guilherme Uma salva de palmas
[Verso 2 - Adolescência: GANDIM] Yeah Pelos púbicos a nascer, testículos a descer Acne a aparecer, a voz não pára de tremer Tens pressa p'ra crescer mas não sabes o que queres ser Tentas ser fresh e dar flex enquanto desenvolves o teu córtex Trocas o barco pirata da Playmobil Pela Jenny McCarthy na Playboy mil Se a Igreja tivesse razão, já tinhas pêlos na palma da mão Já eras cego de tanto montar a tenda em vez de montar Lego Inseguranças e pressas p'ra ser adulto, hormonas num tumulto Testosterona a todo o vapor Tesão, paixão, primeiro amor Coração partido, orgulho ferido, ego ressentido Deixas-te influenciar a fumar Para te aceitarem numa tribo Beto, mitra, metal, gótico, punk, dred, emo neurótico, geeks, nerds, populares, hipsters, hippies ou popstars Tens de te enturmar, a turma é feita para te moldar O importante é não destoar, nem que tenhas de ocultar A tua personalidade verdadeira A escola já não é brincadeira Já não esfolas os joelhos e só no FIFA é que brincas na areia De repente tudo é diferente, os professores são stores O recreio é intervalo, olhas-te ao espelho, achas-te feio e cheiras a cavalo "Venha ao quadro, não sabe resolver a equação?" Não, stora "Não estudou bem a lição?" Não, professora "Tem de estudar mais, então" Sim, senhora A escola é a tua rédea, olha a média Faz os TPCs, olha o exame, olha a prova global de inglês "O que queres ser quando fores grande?" Astronauta "Tens de escolher algo mais realista" Pode ser pirata? "É do teu futuro que estamos a falar e tu aí a brincar?" Então quero ser rapper com autotune ou fazer humor "Não, não, não! Engenheiro, advogado ou doutor" Mas eu não podia ser quem eu quisesse? "Isso era antes, agora cresce e aparece, já não és nenhuma criança" E se eu quiser seguir dança? "Isso é um tiro no escuro, não tenhas esperança, não tem futuro Já não és miúdo, já és graúdo, tens de ser mais maduro Já não tens bibe e babete, já tens 17 Já devias saber o que queres fazer para a tua vida toda Não sabes? Que se foda Considera-te sortudo, não arrisque tudo, joga pelo seguro Olho no canudo, mantém-te na pista Antes doutor que electricista Mesmo que seja dentista Um diploma para seres alguém Mesmo que acabes a fritar batatas no Mc do Cacém"
*Sino a tocar*
[Interlúdio: Amigos] E se o Guilherme quiser ser cá da malta Tem que beber este copo até ao fim, até ao fim E vai a cima, vai a baixo e vai ao centro e vai p'ra dentro e vai p'ra dentro e vai p'ra dentro "Ora aí está, Guilherme Duarte, bêbado mê'mo à porta"
[Verso 3 - Faculdade: GANDIM] Entras p'ra faculdade em tenra idade De repente, tudo é diferente Disciplinas passam a ser cadeiras e cadeirões Períodos passam a ser semestres Colegas são versões beta de doutores e mestres Praxes, copos, cábulas, apontamentos Arraiais, mais copos, festivais, urinóis nojentos Mais festas, bebedeiras, grego, ressacas, lamentos Festas rascas, rally tascas, directas, fragmentos Massa com atum, drogas em jejum, mil batimentos Mão direita é penalti, melhores anos e momentos Directas, exames, frequências, são tormentos Chumbo foi merecido, contra factos não há argumentos "A mulher gorda a mim não me convém, não me convém!" Dizes tu antes dos shots, de mamar vinho em pacote No fim da noite, com um cachorro, até vai bem O que importa é comer alguém Sexo, aventuras, sem complexo, faz loucuras Vanessa, DST, tão cliché, mas tem cura Faculdade é a altura, é tipo buffet A não ser que estudes informática no IST Será que estás na área certa? Haverá outra janela aberta? Quiçá, já é muito tarde para deixar de ser cobarde e partir à descoberta Dúvidas, angústias e o tempo a passar Todos os anos pensas em mudar Mas deixas-te andar, és movido a cafés Se o stor fosse o Taveira, davas o cu pelo dez Pedes recurso, só falta um valor Acabas o curso, és um doutor Fim do percurso, acabou a dor Fazes discurso, recebes louvor Benzes e queimas as fitas, foram só oito matrículas Foda-se, saltas e gritas No fim da noite vomitas
[Interlúdio: Amigos & GANDIM] "A gente não pode vir beber um descafeinado contigo" "Não gozes com pessoas bêbadas, ahn?" Estou a ir agora para casa "Destes momentos bué estúpidos, é juntá-los todos" Ya
[Verso 4 - Jovem-adulto: GANDIM] Faz o currículo e carta de apresentação Tens de ser ridículo e dar graxa ao patrão "Adorava imenso que fosse o meu empregador Tenho excelentes conhecimentos de Office na ótica do utilizador" (Ya, isso é mais Word) Fato e gravata, check Barba aparada, check Unha cortada, check Tudo para no fim do mês teres o cheque "Onde se vê daqui a 5 anos?" Aqui, de certeza, já com carro da empresa, cargo de chefia e responsabilidade "Qual diria que é a sua maior qualidade?" Não sei, é sempre difícil dizer sem vaidade Sou muito pontual, profissional, faço o trabalho bem feito "E o seu maior defeito?" Perfeccionista, nunca estou satisfeito E teimoso também, mas isso até acaba por ser positivo Porque me ajuda a alcançar os meus objetivos e chegar mais além "Isso é o que todos dizem" Ahahahahah, ah o chefe tem piada! "Muito bem, o estágio é seu, vai ter um fit na nossa cultura ADN fresh e dinâmico, esperemos que esteja à altura" Reuniões, e-mails, workshops, avaliações Team building, Excel, brainstorming, formações, fazer serões "Pode vir trabalhar este fim-de-semana?" Sim, chefe "Pode ficar até mais tarde por causa da timezone americana?" Sim, chefe "O relatório tem de ficar pronto hoje, nem que tenha de queimar a pestana" Sim, chefe "Este ano não o posso aumentar, a sua avaliação foi mediana" Obrigado, chefe És um banana vendido e rendido Quem não, chora não mama Tu só choras escondido e encolhido És um vassalo, um escravo 2.0 sem intervalo Picas o ponto em auto-piloto Ficam com a fruta e tu com o caroço Comem-te o cérebro, deixam-te com o osso És um zombie com pausa para almoço Vais à copa, levas marmita Parece a tropa, sesta na sanita O melhor que há no teu dia, RH, copa D da Maria Quase não dormes, parece que estás num culto Olhas-te ao espelho, pareces um vulto Ris-te de quando tinhas pressa para ser adulto
*risos*
[Verso 5 - Adulto: GANDIM] Horas extra, de segunda a sexta Vives para um sábado bêbado Ressacas dia seguinte do tinto e só te queixas mais azedo que o vinho Arrumas a casa ao domingo, não tarda estás a ir ao Bingo Segunda, voltas à labuta, desfruta, bem-vindo à idade adulta A semana é só work, já não há hobbies Eventos só de network sem os teus homies Já nem passas tempo com os amigos, passatempo só papa-figos "A ver se combinamos um almoço" Ya boy, temos de fazer o esforço "Próximo sábado, que dizes, uma night out?" Não vai dar, tenho de ir trabalhar "Devias descansar, olha o burnout" Por acaso ando de rastos, confesso "Epá, ainda acabas com um esgotamento do stress" Ya... IRS, água e luz para pagar, inspecção do carro, PPR para poupar, casar, ter filhos, assentar A tua vida é tão banal como estas rimas em ar "Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, aceita para sua esposa?" Sim "Tem a certeza?" Sim Vai ao IKEA o dia inteiro És uma formiga no carreiro, mas não vais em sentido contrário Não és Zeca, és carneiro Cama, cómoda, já está, falta o serviço de chá Ver novelas no sofá Punhetas só no chuveiro é que as há Tem filhos, é o que a sociedade te pede, segue, não a desiludas Sonhos desaparecem, triângulo das Bermudas Cede, não sejas um Judas É o próximo passo deste plano a um traço Um compasso de espera 9 meses até uma nova primavera Já nasceu, paizão protector, uma fera Amor, paixão sincera Mas a tua vida é slogan de imobiliária... Já Era! Mais um rebento para dar alento ao casamento Vive para eles, sê feliz por eles, sonha com eles, não te separes, pensa neles Os anos vão passando, tu e ela já só são colegas de casa O amor louco de quatro virou conformado no quarto Dividem a renda, sem amor nem tenda Sem nada que vos prenda O casamento já é só promessa, compra e venda A expectativa é inimiga da felicidade e a sociedade tem-na grande Enchem-te dela em tenra idade e depois tiram-te o volante Entras num círculo viciado, num circuito fechado, meio ressabiado A tua animação é dizer mal do colega do lado Mais uma voltinha ao carrossel, és peão neste jogo de xadrez Ao abismo fazes rapel e da depressão ficas freguês Rewind! Segunda-feira outra vez Trânsito, atrasado, colega demasiado feliz logo de manhã feito atrasado Trânsito, chegas a casa cansado de estar todo o dia sentado Tudo pela promoção pela carreira Sem motivação pela carteira recheada Uma mão futura cheia de nada Estabilidade ou felicidade? Voltar atrás? Agora já é tarde Tinhas o mundo a teus pés mas entre vocês estava um tapete E algures entre dois cafés, puxaram-to de repente "Ando aí com um projecto", dizes tu como quem mente Que ainda vai mudar de trajecto e que tem um futuro pela frente Nah, destino traçado, laçado e embrulhado Dados lançados, tudo tratado, trato fechado Sempre te ensinaram a não arriscar e a ter cuidado És só mais uma cabeça de gado
[Interlúdio] Eu quero ser feliz, porra! Eu quero ser feliz, agora! Que se foda o futuro!
[Verso 6 - Meia-idade: GANDIM] Olhas-te ao espelho e a gravidade já fez efeito Sem perceberes, já passaste da metade Parabéns, chegaste à meia-idade A desforra é um descapotável desportivo Sentes-te novo, sentado no assento aquecido Faz todo o sentido neste momento Os poucos cabelos que te restam ao vento Sentes-te velho, tem um affair Não importa com quem, qualquer mulher Queres sentir-te vivo e desejo ardente Aquela tesão e paixão como um adolescente Sentes-te Troika no meio da crise existencial É um deslize, sem histórico, dizes que é normal Queres que o cérebro sintonize outro canal Tudo o que ele precise para esquecer a season final Calvície, já vês a velhice no horizonte Dores na perna e cervical, sem saberes d'onde Procuras a fonte Medo de morrer mais perto e real Vai ao check-up anual "De que é que se queixa, afinal?" Tudo um pouco, cada vez mais mouco "As suas análises podiam estar melhores para a sua idade" Alguma coisa de grave, doutor? "Nada que não se possa compor. Bebe muito, normalmente?" Não, é mais socialmente "Então vai ter de ter cuidado e fazer uma alimentação diferente" Porquê? Se a tiver, vou viver para sempre? "A morte é inevitável, mas sempre vive mais uns anos saudável" Mas sem prazeres, não sei se não é descartável É como estar parado na montanha russa "A escolha é sua, deixe lá ver a próstata, dobre-se e tussa" Nem pestaneja, nem te aleija, habituado Já não é a primeira vez que és enrabado Que a vida te mete os dedos no cu A realidade não tem medos nem tabu Dás por ti, és mais um cota rebarbado A dar likes em miúdas novas que mostram o rabo "A juventude está perdida", um desabafo Mas culpas os outros pelo teu fracasso A felicidade dos outros sabe a estilhaço Para os teus filhos não passas de um embaraço Começas a sentir-te um chaço, velho e a mais Prometeste mas estás a um passo de ficar como os teus pais
[Interlúdio: Manuel Luís Goucha] "Ora então muito boa noite, cá estamos nós para o espaço Viva Melhor Vamos falar do livro que já vendeu em Portugal 400 mil exemplares"
[Verso 7 - Sénior: GANDIM] 65, já és sénior Está na hora de curtir a reforma Mas não há energia, nem estás em forma Tu e ela já só refilam pela tampa da sanita pela guita Só destilam ódio e rancor, já são estranhos sem amor E já só se cruzam no corredor Diálogos são monólogos e sabem a bolor Os dias são takes repetidos sem fulgor Casa é set e vocês são actores Já não contracenam, é só guião de mau humor (e um mau escritor) "Compraste aquilo que te tinha pedido?" O quê? "O alho para o estrugido que te tinha pedido quando foste lá fora" Esqueci-me, queres que vá lá agora? "Não, deixa estar..." De certeza? "Sim, já disse" Ok, mas depois não te ponhas a refilar disso "És sempre a mesma coisa, nunca ouves o que eu digo, só queres saber do teu umbigo" Olha quem fala, eu estou sempre a dizer para não deixares a luz da sala ligada "E o que é que isso tem a ver com a conversa?" Nada, nada, nada, ora essa Eu não posso dizer nada, tu és perfeita, nunca estás satisfeita "Só pedi para comprares alho para a receita, achas que foi pedir muito, isso?" Já pedi desculpa, para que nunca te esqueceste de nada, tenho que andar aqui submisso "Olha, nunca me esqueci da aliança e do compromisso" Outra vez com isso? Disseste que tinhas perdoado mas puxas sempre dessa carta "Menti. Perdoei, mas não esqueci, se calhar agora já estou farta, mas deixa lá, não se passa nada" Se não se passa nada, mais valia teres ficado calada "Mais valia não te ter contado" Já nem ficas chateado, o drama sem cama é melhor do que o silêncio conformado Dizes-te feliz reformado mas o segredo é que o medo de já não seres útil te deixa transtornado O que é que vais fazer com o tempo que te resta? A nostalgia é cada vez mais indigesta Tempos que já não voltam, arrependimentos, ressentimentos Amigos perdidos para o tempo de quando pensavas viver para sempre Uma excursão no Douro antes de estares a soro São os teus anos de ouro antes de seres só dores Faz um cruzeiro, gasta o dinheiro, aluga um veleiro Sem trabalhar, tudo é recreio Olha a saúde, vai ao celeiro O prejuízo é a tua cenoura e o medo é teu conselheiro Dá umas corridas, faz um jantar ligeiro Tenta adiar o fim, o futuro é já ali Será que ainda vais a tempo da viagem a Pequim? Anos e anos, enganos e danos Tens as gavetas cheias de planos O livro que nunca escreveste A árvore que plantaste, mas onde já esqueceste Dias e dias, horas perdidas Tens as tuas memórias doridas Agarrado a tudo, menos ao presente Obcecado pelo futuro, como se fosses vidente Há vidas piores do que a tua, é certo Mas há quem não possa sonhar longe, só ao perto Mas tu tinhas a vida pela frente e isso deixa-te inquieto e corrói-te por dentro Os teus filhos já pouco te ligam e quando tu ligas já pouco atendem A única chama de felicidade são os teus netos que a acendem A única razão dos teus afectos são a motivação para não estares quieto Lembram-te do que podias ter sido, porque na inocência não têm noção que são completos Será que os vais ver crescer? "Avô, vais à escola ver a minha peça?" Claro que sim, meu amor Dizes com pressa e cheio de medo de não cumprires a promessa Os anos vão passando mais depressa A chama acesa desvanece, já nada te motiva, nada te arrefece, nada te dá gozo Olhas-te ao espelho e és um idoso
*sinos*
[Verso 8 - Idoso: GANDIM] Se calhar trabalhaste demais, desperdiçaste a juventude Vida inteira a ganhar e a querer mais para agora gastar na saúde Não saltaste de paraquedas, não tocaste um instrumento Não disseste "amo-te" a toda a gente Não fizeste uma tatuagem nem um safari selvagem Não deste a volta ao mundo nem nada que se pareça Não nadaste com um tubarão, não fizeste a diferença Não viste um vulcão em erupção Não mergulhaste na barreira de coral Não fizeste a Route 66 Nem sequer viste a aurora boreal A tua bucket list agora é chegar ao Natal para ver os filhos discutir pelo capital e pelas partilhas Mas já ninguém quer partilhar tempo contigo Talvez te visitem para o ano, quando estiveres no jazigo Sentes-te um fardo, já não comes sozinho Usas resguardo, eufemizam os velhinhos Não queres incomodar, metem-te num lar Não estás mal, mas é estação terminal Segunda infância, mas é de circunstância Fralda, babete, já tens 87 Olhas-te ao espelho e não te reconheces Os amigos, onde estão? Os sortudos já lá vão Os outros? Os outros levou-os o tempo sem nenhuma razão Enterrado ou cremado, tanto faz Já só queres ser levado, 'tar em paz Os teus dias são um flashback, já só desejas o heart attack Sentes-te confuso, tens a morte em snooze Todos os dias a adias um pouco Vives na fantasia, chamam-te louco Quem sou eu? Não sei, não me lembro Em que mês estamos? Novembro? "Com este calor? Não vê que é verão?" És o meu filho Rui, então? "Não, o Rui já morreu, avô, sou o seu neto, já se lembrou?" Morreu? Ainda ontem me veio visitar "Anda filho, deixa-o estar, não insistas, não vês que o avô tem demência?" Chegas ao fim em completa dependência, com rasgos de lucidez no meio da dormência Tratam-te com condescendência, como um retardado "Quer um bocadinho de gelado?" Cansado, acamado, ouves o último suspiro do colega do lado "O que é que está a fazer, avô?" O mesmo que ele, coitado A ver se vou, à espera da morte "Ainda vai ter de esperar muito" Só se não tiver sorte "Vamos, está na hora de ir Até amanhã, venho cá se puder" Até amanhã... se Deus estiver distraído, ou não quiser
Monitor de sinais vitais a desligar-se
[Verso 9 - Morte: GANDIM] "Bem-vindo! Queres entrar? Achas que tens o que é preciso?" Onde é que eu vim parar? "Ao paraíso. Também há quem lhe chame além" Quem diria... nunca pensei que fosse real, amém "Pois, sempre tiveste desdém por mim, mas afinal..." Estava errado, não foi por mal, acontece Nunca pensei que existisses e ouvisses preces "Tens o meu perdão, mas antes de abrir o portão, preciso de saber a tua motivação para entrar no céu" É este o julgamento final? Sou um réu? "Não, é mais uma entrevista aos que não estão na guest list Bom, mas onde é que te vês daqui a 5 anos?" Não sei, dizem que para Deus se rir temos de lhe contar os nossos planos "Boa resposta, podes entrar, espero que te agrade Ou preferes voltar à Terra, para uma segunda oportunidade?" Está a falar verdade? "Não e nem é má vontade, eu não existo, sou uma manifestação do teu inconsciente, apesar de não seres crente É um truque do teu cérebro, do nosso cérebro" Neurónios disparam descontrolados no leito da morte A tentar tudo aquilo que te conforte Para te distrair nesta angústia, astúcia da evolução O nada vem aí a qualquer momento, nada vai importar então O vazio da ilusão é melhor que o sofrimento do arrependimento Não há luz, só há neblina Últimas sinapses misturadas com morfina Mecanismo de sobrevivência, auto-defesa da tua essência Insolvência da alma à procura da recompensa Não há extrema unção porque não há penitência Agora vem o nada Não há alma, tudo acalma depois da turbulência Órgãos em falência Eu sou as últimas palavras da tua consciência Não tenhas medo, fica descansado Tiveste uma boa mão, espero que a tenhas usado Foste privilegiado, espero que não tenhas desperdiçado Tu tiveste uma boa vida Espero que a tenhas aproveitado