Lyrics: Lou Schmidt/Everton Behenck
Music: Lou Schmidt/Everton Behenck
EPÍL OGO
CARTA ABERTA AO MEDO DE AMAR
Sempre há a chance de que tudo seja um erro. Mas o erro faz parte da matéria de que é feita a vida. Tudo pode ser uma loucura mesmo.
O coração tem olhos frágeis. E inventa o horizonte para onde os aponta. Às vezes se engana. É cego e analfabeto. E às vezes nem vinha do peito o que nos soprava coisas no ouvido. Nos sentidos.
Acontece, eu sei. Já vi.
Do amor, seus filhos e parentes eu sei tudo o que é possível. E isso é entender que pouco sabemos. O amor é um mistério tão grande quanto o universo.
Mas o amor é meu ofício desde que me entendo homem. O amor é meu lugar no mundo. Já fui amado mais do que qualquer um nessa terra. Com devoção honesta. Com dor e sacrifício. Com loucura e vício. Com prazer de perder o céu e o chão. De encontrar deus.
Marquei a ferro muitas vidas. E fui marcado na mesma medida. Com dor e trauma e destruição. Com felicidade de despertar a inveja do paraíso.
O amor é tudo isso.
E multiplica seu sentido assim que o descobrimos. Já amei mais do que poderia supor qualquer possibilidade, sanidade ou autopreservação.
Eu não me preservo. Eu já morri de amor.
Eu sou louco e queimo até que não sobre nada além das cinzas. E dessas cinzas, eu tiro força e energia para
sair do que sobrou da fogueira com um diamante no peito. Eu não tenho medo. E teria todos os motivos para tê-lo. Ainda caminho sobre a terra arrasada. Mas tenho certeza que serei sempre mais forte quando dei- xá-la. Eu já perdi tudo. Fiquei sem nada no mundo. Sem nenhum pertence.
Por amor.
Se alguém tem motivos para correr na direção contrária, sou eu. Mas eu não corro. Poderia ser o primeiro a ficar torcendo por uma chance de voltar atrás. De correr para um lugar seguro. De voltar para a zona de conforto. Mas onde é a zona de conforto quando se está amando?
O amor só é conforto depois que ele próprio olha para você e percebe o quanto está entregue e vulnerável. O quanto é incapaz de se defender. O quanto não quer se proteger enquanto atravessa as dúvidas e a angústia. Para descobrir o que há do outro lado. O amor é sempre um lugar onde a gente nunca esteve. O amor inventa dentes assustadores e sorri com eles. Só para ver se temos coragem de entrar em sua boca. E só então beber seu beijo.
O amor não é para os fracos. O amor não é para quem morre de medo. Para quem precisa estar no comando. O amor é a própria ordem. Por isso, até os planos são supérfluos nesse momento. O amor muda os polos e com eles o sentido das bússolas. O amor se apossa da casa. Troca a fechadura.
Eu entendo quem foge. Eu entendo que o amor fique mais raro e assustador na medida em que avançamos neste século de apaixonados pelo espelho. Entendo que menos pessoas o reconheçam. Ou que simples- mente não se importem. E que não achem valer a pena assumir os riscos. Pagar o preço.
Provavelmente não vale.
Eu entendo quem se preserva. Quem se protege. Quem escolhe o lugar seguro. Eu entendo.
E quem sou eu para dizer que estão errados? Não sou exemplo senão de que amor não mata. Na maior parte das vezes. Só tenho a meu favor o que dizem meus olhos.
Mas quem se arriscaria para vê-los de perto? Eu entendo quem vira as costas. Quem dá de ombros. O amor é o quarto e é a rua. Ao mesmo tempo. E é claro que tudo fica mais fácil sem o amor.
O amor é um saco e só atrapalha o que estava certo e calmo. O amor é um cão dos diabos, já dizia o velho poeta bêbado com um pássaro azul no peito.
O amor pode não dar certo. Mas só ele pode nos dar tudo.