Lyrics: Victor de Oliveira Rosato
Music: Victor de Oliveira Rosato
A caneta não escreve… ela sangra.
Cada linha é cicatriz…
E cada batida, uma lembrança que insiste em doer.
Aqui, o funk é oração — e denúncia.
Não é só sobre mim… é sobre todos que não puderam contar sua versão.
Me criei onde o grito morre antes de nascer
Onde o mundo não pergunta, só manda correr
Rua quente, coração gelado
Sorriso escondido no canto do olho cansado
O pai ausente, a mãe gigante
Tornou o menino um tipo de diamante
Lapidado na porrada, polido na falta
Me vi no escuro, mas virei luz na própria calçada
Enquanto cês pedia playstation, eu pedia paz
Enquanto cês fazia plano, eu só queria mais
Mais tempo com os meus, menos polícia na esquina
Menos corpo no chão, mais amor na retina
Funk não foi escape, foi sobrevivência
Foi o verbo gritado quando a fome era sentença
Foi o escudo quando o mundo cuspia no gueto
E hoje é arma poética contra esse preconceito
Sou cria da dúvida, herdeiro da dor
Mas fiz da revolta o meu motor
Cada letra é um tijolo nesse castelo frágil
Onde o rei não tem coroa, mas carrega o caos no traje
Esse verso sangra, essa rima pesa
Cada linha é um pedaço da minha fortaleza
Cês vê a glória, mas não viu o preço
Cês quer o ouro, mas não leu o começo
Esse verso sangra, essa vida cobra
Na quebrada, ou você cresce ou sobra
E eu não vim pra me curvar pro sistema
Eu sou a resposta viva do dilema
É foda ser estatística antes de ser ser humano
Ver o irmão sumir na esquina igual cigarro no pano
É foda crescer ouvindo que teu sonho é loucura
E ver no olho da sua mãe a mesma pergunta dura
“Filho, quando é que isso muda?”
E a resposta entala porque o mundo é surdo na escuta
O Estado não sobe, só desce pra matar
E o que a escola não ensina, o corre vem ensinar
Aprendi cedo: o corre é cruel
Mas também é sagrado, tipo oração no papel
E cada clipe, cada show, cada faixa lançada
É a lágrima que virou armadura blindada
Hoje a favela não pede licença
Ela entra, com flow, com presença
E se minha dor virou arte, meu povo virou potência
E o que era pra ser silêncio... virou resistência
Não me ouve como artista...
Me ouve como espelho.
Se minha história te doeu, imagina viver ela sem roteiro.
Sem playback.
Sem corte.
Na unha.
Esse verso sangra, essa rima pesa
Não é flow, é cicatriz na mesa
Cês quer aplauso, mas foge da dor
Funk é vida, é grito, é amor
Esse verso sangra, essa alma acende
Quem vem do barro, nunca se rende
E mesmo sem diploma, sem fama, sem coroa
Eu sou o livro vivo que a quebrada entoa
Não é sobre vencer...
É sobre sobreviver com dignidade.
É sobre cantar pra quem nunca teve o direito de chorar alto.
Favela não é problema — é potência.
E se a minha voz incomoda…
É porque ela nunca foi feita pra dormir em paz no ouvido de quem sempre dormiu em berço de ouro.